Sem saída.
Sem saída, sem destino, profunda, desconhecida e escura. Pouco se enxerga, as luzes são fracas, o clima é fúnebre, o caminho é difícil, as calçadas são irregulares. O galo canta, o cachorro late, a torcida grita, o som da serraria entoa o ritmo da vida do galo que canta, do cachorro que late, da torcida que vibra e grita: Gol do Cruzeiro!
O que se esperar de uma ruazinha sem saída numa pequenina cidade histórica de Minas Gerais? Histórias, lendas, seu povo... Ah, seu povo! Isso sim é que é diversidade! Jovens, velhos, crianças, brancos, negros, mulatos, pardos, tem de tudo, de tudo se encontra lá! Mas a rua é sem saída, para onde ir quando o caminho acaba? O fim da rua termina em uma casa, mas ela só termina se você não ouvir a voz de uma senhorazinha gritando: Ô, meu filho, entra aqui um poucadinho e vem tomar um café! Entrar ou não entrar. O fim é só a entrada para uma nova vida, uma nova história. Brotam-se contos e lendas em sua fala, brotam-se sonhos e esperanças em seus olhos. Do lado de fora da casa, chove.
A chuva que desce desde a casa 25, a última da rua, molha as pedras, e faz deslizar o Monza ano 87 que acelera, acelera, até subir a rua. Do outro lado da esquina, a jovem senhora, conhecida como dona Helô, solta aquela gargalhada com suas amigas de fuxico, de cozinha e de escola. Escola? Sim, a dona Helô toda noite desce a rua rumo à sua escola, ela faz supletivo, e se diverte com suas contas, sua leitura, seus desenhos e seus sonhos.
São poucas casas na rua, poucos carros se aventuram a adentrá-la, e quando entram, logo vêem a alegria de um povo que vive, sonha e vibra. Aos domingos à tarde a rua para. Há cruzeirenses, corintianos, são-paulinos, santistas, palmeirenses, atleticanos. Os cruzeirenses são uma história a parte. Gritam, vibram e soltam fogos. A dona Helô é mais uma dessas cruzeirenses roxas, ela sai à rua é berra: Zêro! No final do jogo, quando perdem, a rua se cala.
No dia seguinte, segunda-feira, a vida segue na Rua Vila Rica com o galo que canta, com o cachorro que late, com o som da serraria que entoa o ritmo da vida do galo que canta, do cachorro que late, da torcida que chora mais uma eliminação. Ráá !